2005-08-15

Alvalade XXI. 2005.08.14 .

Por uma vez o recinto registou uma enchente. Por uma vez o visitante era ilustre. Por uma vez a equipa da casa portou-se à altura.

Mas, afinal, o que é um concerto de estádio?
A resposta é simples e resume-se a dois caracteres: U2.
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No auge era a ZooTV e um caricatural Mcphisto fazia um zapping furioso pela parafernália hi-tech que suportava um conceito. Era a aldeia global no seu todo, a confusão e a vertigem da vida alucinante que se vivia já, nos primórdios da mediatização da Internet e da massificação do telemóvel. Era o tempo em que a Televisão era ainda dona do mundo. Os contactos telefónicos para a Casa Branca ou para a telepizza mais próxima e a interacção vídeo com personalidades como Elvis, Lou Reed, MLK ou George Bush tornaram-se imagens de marca. Achtung Baby e Zooropa as obras primas. Era 93 e nada seria como dantes.

A PopMart juntou em 1997 o capitalismo com a cultura kitsch. O maior ecrã do mundo e um gigantesco limão transformado em nave espacial eram o expoente máximo da irónica grandiosidade de um marketing artificial. O ruído visual ainda reinava. A incompreensão apoderou-se de tal eloquência.

Uma ruptura com esta insanidade ou uma tentativa de regresso às origens, levaram a Elevation tour para recintos fechados. O concerto de estádio no seu formato indoor. O pseudo-intimismo era simulado pela ausência de céu aberto nas actuações. A simplicidade era falsa e aparente.

2005. Vertigo tour. O braço europeu tem o seu culminar em Portugal.
Lotação esgotada há meses. Expectativa reforçada pela ausência anterior. A componente política é mais forte do que nunca, resultado da intervenção social que vai sendo levada a cabo pelo líder da formação e que lhe valeram já a nomeação para o Nobel da paz. A proximidade entre público e banda acontece como não era possível no recinto que acolhera as 2 visitas anteriores. A ilusão de que de um pavilhão se trata é herança do Euro 2004.

Os hinos de sempre são mesclados com pinceladas dos rumos recentes. Do último “How to dismantle an atomic bomb” são sete as amostras. A base desta digressão é mantida, sempre com a sensação de estar a acontecer algo de mágico e único. A máquina U2 funciona. As novidades passam tão somente pela desconhecida faceta de percussionista demonstrada por quem normalmente comunica com a voz e pela demonstração de que são infundados os rumores que dão conta que essa mesma voz atingiu o prazo de validade, quando Luciano Pavarotti é substituído por um Bono tenor, na interpretação de Miss Sarajevo.
“Bad” continua na gaveta, assim como “All I want is you” e “Running to stand still”. “October”, “Zooropa” e “Pop” não são lembrados. No encore ressuscita a ZooTV. Para o final, a surpresa. Vertigo não teve, felizmente, direito a 2ª chamada, antes recaindo a opção num saudoso (e saudável!) “40”, com despedidas individuais e discretas, ficando o maior protagonismo para quem normalmente dele prescinde, o baterista Larry, último a abandonar o palco. Nos ouvidos uma mensagem ecoava. “How long to sing this song…”

Por uma vez uma multidão saiu satisfeita do Alvalade XXI...

6 comentários:

Anónimo disse...

Caro amigo, com esta descrição até parece que estiveste em Alvalade a ver a "vertigo o5". De facto a multidão vibrou e saiu saisfeita, posso confirmar, mas lembra-te que a nossa selecção ganhou lá no euro 04.

Anónimo disse...

U2, o que realmente significa a banda? É preciso deixar os ouvidos deliciarem-se com tal harmonia, rock, pop-rock, música que fala, que grita e entre-nos pela alma dentro, só possível com este quarteto...

j.seabra disse...

um, dois, três, catorze... de agosto. mais uma data para o calendário das boas recordações...
um abraço, e obrigado pela boleia!

p.s. o porco daquela zona a norte de Coimbra já está com saudades nossas...

Rui Coutinho disse...

não comento... simplesmente, não comento...

Anónimo disse...

e tarde demais , já comentaste...

N.M. disse...

speechless